"Primeiro eu!", grita o menino em
meio aos seus amigos, frente à nova brincadeira. Da mesma forma, O Mago, o
número 1, inicia a sequência dos arcanos maiores no Tarot puxando a fila de 22
figuras. Antes de tudo e de todos, o EU.
Sabemos que a fortificação do ego é necessária
para a construção da identidade na infância. E é partir desta lenta engenharia
que a facilidade para interagir mais e melhor se monta, que nos tornamos aptos
para reconhecer uma parte de nós no outro, em que se habilita o sentido da
alteridade e a empatia. A capacidade de amar a si mesmo é condição sine qua non
para uma vida plena. No entanto, uma postura egocêntrica arraigada nos impede
de alcançar a tranqüilidade interior, atrapalhando o desenvolvimento da
autoestima e, por consequência, a capacidade de amar verdadeiramente.
Paradoxal? Sim. E aqui reside o segredo: nem
tanto ao céu, nem tanto a terra. A sabedoria reside no exercício da justa
medida. É só ter em mente que para um contato saudável com o mundo exterior é
preciso, antes de tudo, regar o espaço interior, encontrar um reduto de paz.
Uma questão de "prioridade", de ponto de partida, aliada à noção de
que nada está separado, que somos os elos de uma imensa cadeia. Reconhecer
nossos recursos, nossos aliados internos, nossas qualidades, fortifica nosso
papel dentro da estrutura e reforça a vida social e afetiva.
O Mago, o primeiro arcano, ilustra
simbolicamente esta noção: em algumas das suas representações, traz o uroboros,
cobra que morde a própria cauda, em torno da sua cintura. O arcano I busca nas
forças celestes (o caduceu levantado) e telúricas (seus pés fincados no chão e
as pernas da mesa de trabalho) a constante auto-renovação (característica das
serpentes) absolutamente necessária para que se tenha condições de criar novas
realidades. A sua frente, os elementos, simbolizados pelas moedas (o plano
material), pelos copos (plano emocional), pelas facas (plano intelectual) e
pelo bastão em sua mão (plano intuitivo) mostram que O Mago domina com a
habilidade de um malabarista, em todos os estratos, as suas relações com vida.
A concentração e a consequente perícia tornam
as mãos do Prestidigitador tão hábeis e rápidas quanto o pensamento. E é a
partir do autoconhecimento, do crédito que confere às suas capacidades, que O
Mago e todos nós podemos começar a caminhada e comunicar ao mundo de onde
viemos e para aonde vamos. É daí que nasce o potencial de reflexão (A
Sacerdotisa), o de frutificação (A Imperatriz), de concretização (O Imperador),
de abstração (O Papa) e assim por diante.
Quais são suas habilidades?
Um exercício simples, mas efetivo, para que
contactemos nossos recursos internos é o seguinte: corte algumas folhas em
branco em quatro partes. Coloque-as sobre uma mesa com canetas ao lado,
sente-se e relaxe. Se uma música clássica ajudá-lo no processo, ótimo. Respire
fundo várias vezes. Esqueça suas questões, seus problemas. Entre em contato com
seu centro e pergunte-se quais são suas verdadeiras habilidades. Assim que
tiver levantado algumas delas, começe a escrever. Cada uma das habilidades
ocupará um quadrado. Sim, você pode sofisticar o exercício e colocar ao seu
lado um vaso de flores representando a terra e o plano material, acender um
incenso para aludir ao ar, plano intelectual, encher um cálice com água para
acessar o plano emocional, acender uma vela para lembrar-se do plano intuitivo
representado pelo fogo. Anote tudo o que sabe e pode fazer. Registre suas
melhores qualidades. Quando achar que está bom, pare e vá fazer outra coisa.
Durante o dia olhe várias vezes para a mesa com seus quadrados de papel. Se
algo lhe ocorrer, remarque, revise, acrescente.
Partindo do príncipio que o primeiro arcano
funciona melhor em contato com o segundo, A Grã-Sacerdotisa, continue o
exercício: sozinho, antes do horário de dormir, troque os lençóis. Escolha o
melhor pijama, a camisola mais macia. Tome uma ducha, e, se puder, um banho de
imersão com ervas de sua preferência. Busque no contato com a água o sentido da
tranquilidade. Identifique-se com a água. Maleável, aconchegante, transparente,
fluida como a sua alma. Passe o tempo que for necessário nessa relação. Saia do
banho, fique frente a um espelho e passe um creme ou óleo especial
vagarosamente pelo seu corpo. Acaricie sua pele como quem acaricia um coração.
Olhe-se, ame-se, deixando que o espelho reflita não o seu corpo, mas a sua
essência mais pura. Ela irá transparecer através dos seus olhos. Vista-se e
antes de deitar-se, , junte os papéis da mesa, empilhe e coloque embaixo do
travesseiro. No dia seguinte, anote seus sonhos e impressões, mantendo a
sensação que sentiu dentro da água. Suas relações estarão facilitadas e você
sentirá maior paz interior quando terminar.
E para fechar, complete o trabalho com A
Imperatriz, arcano da frutificação. Escolha uma quantidade de sementes
correspondente aos quadrados de papel e plante-as em terra fértil. Cuide bem do
seu canteiro. E guarde suas anotações em algum lugar especial e seguro.
Lembre-se: a satisfação consigo mesmo é o
primeiro passo para satisfazer aos outros. É impossível fazer alguém feliz sem
se sentir feliz primeiro, nem que seja por pequenos momentos. Reconhecer a
beleza interna é imprescindível para identificar a beleza nos outros e no mundo
que nos rodeia.
Assim terá reunido as condições necessárias
para o exercício do amor. E isso é pura magia.
Primeiro EU!
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